O culto à auto-imagem

Existe uma imagem que projetamos de nós mesmos e uma que imprimimos em nosso interior. Um dia, elas haverão de confrontar-se. Quando isso acontecer, uma será apagada; a outra é a que assumiremos definitivamente.

— Está realmente pronto? — murmurou ele descendo da plataforma.

— Totalmente pronto — disse o pintor. — E você posou esplendidamente hoje. Sou-lhe muitíssimo grato.

— Graças inteiramente a mim — interrompeu Lorde Henry. — Não é, sr. Gray?

Dorian não respondeu, passando indiferente a seu quadro e virando-se para ele. Recuou assim que o viu, e seu rosto enrubesceu de prazer por um instante. Uma expressão de alegria surgiu em seus olhos, como se ele tivesse se reconhecido pela primeira vez.

Em seu livro O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde nos apresenta a história de Dorian, um jovem ingênuo e belo como nenhum outro e que a todos causava admiração.

Convencido por seu amigo pintor Basil Hallward a posar para um retrato seu, Dorian tornou-se inspiração e modelo de uma obra de arte perfeita.

A pintura, como um espelho que reflete sem defeitos, era tão maravilhosa, que aprisionou o jovem num encanto, uma espécie de maldição de Narciso: apaixonou-se pela projeção da própria imagem e passou a cultuá-la.

Em algum ponto da narrativa, ele percebeu que havia realmente algum encanto que o ligava profundamente à pintura. O tempo passava, e ele não envelhecia um só dia; da desordem que vivia, dos pecados que praticava e do mal que exercia, não sofria efeitos.

Era a imagem que os sofria — todos: os efeitos do tempo e da vida. Enquanto ele, misteriosamente, conservava em si a aparência bela, jovem e pura, perfeita como no momento em que a pintura foi concluída, essa tornava-se cada vez mais horrenda e odiosa — como uma projeção da sua alma.

Não vivemos nós como Dorian Gray? …Na verdade, não vivemos nós como versões às avessas de um Dorian Gray?

Todos, em certa medida, temos imagens hiperbolizadas, assoberbadas de nós mesmos, inclusive — e, talvez, sobretudo —, quando projetamos uma imagem inferior àquela que representa o nosso real estado.

Por um defeito de personalidade, cultuamos no exterior uma figura que não corresponde à que cultivamos no interior.

Buscamos nos apresentar ao mundo como pessoas inteligentes, virtuosas, decentes, e até nos comportamos exteriormente como tais. Nos vemos através do espelho e dos olhos do mundo e nos convencemos de que, sim, somos assim.

Ao contrário de Dorian Gray, a figura que projetamos, ou que projetaram de nós e à qual assentimos, a figura pela qual nos enxergam, a que apresentamos ao mundo, continua intacta, polida… perfeita.

Enquanto isso, aquela que está trancada, escondida num quarto escuro, soterrada sobre tantos entulhos reluzentes, não cessa de se decompor e apodrecer.

“Mas ela está escondida. Ninguém precisa saber…”, podemos pensar.

E podemos, sim, continuar a viver de modo a ignorá-la, como se ela não existisse. E, todas as vezes em que não conseguirmos evitar e ela insistir em ser vislumbrada por um rápido instante, faremos como Dorian, que, quando não suportava mais ver o horror em que o seu retrato se transformara, jogava sobre ele um lençol velho, trancava o quarto por fora, lhe dava as costas e ia continuar com a sua vida.

“Curar a alma através dos sentidos e os sentidos através da alma”, como ele repetia para si mesmo, para enganar-se, nos momentos quando buscava uma fuga da realidade, que lhe perseguia em seu interior.

Mas já não encontrava a fuga; não encontrava a cura dos sentidos, muito menos da alma.

Nós tampouco conseguiremos continuar fugindo da nossa real figura, pelo menos não para sempre. Afinal, como diria São Paulo, hoje nós vemos confusamente, como por um espelho, mas chegará o dia em que veremos plenamente (1Cor 13,12).

Então, a nossa auto-imagem irá apagar-se, pois será confrontada com a imagem que ignoramos e que passamos a vida inteira construindo… ou melhor: destruindo.

E não seremos mais capazes de ignorá-la, fingir que não existe, pois será a única que teremos, e com ela nos apresentaremos para a Eternidade.

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