Sim, você precisa estudar latim

O estudo do latim é talvez o elemento da pedagogia clássica mais negligenciado e o que mais enfrenta descrença no nosso meio cultural. Mas ele é essencial para o desenvolvimento da sua inteligência; e nós explicaremos por quê.

Latim - Eneida

Dentre os elementos constituintes da nossa proposta pedagógica, do modelo educacional que pregamos e pelo qual advogamos ao longo de todos esses anos de atuação pública do Instituto Borborema, aquele enfrenta mais resistência certamente é o latim.

É fato que cada vez mais pessoas têm sido despertadas para a realidade de privação intelectual à qual todos foram submetidos e para a importância de se buscar um restabelecimento da inteligência por meio de boas obras da literatura

Mas, quando se propõe a leitura de boas obras de literatura escritas em língua latina e o estudo aprofundado desse mesmo idioma, não se costuma observar mais do que desprezo e até certa aversão.

Para muitos, essa proposta não passa de um intento saudosista de mentes aficionadas por uma tradição já superada, inconformadas com o progresso cultural e intelectual — pura vaidade intelectual, acreditam.

Outros até percebem algum valor nisso, mas julgam ser um fardo muito pesado para si e não estão dispostos a carregá-lo ou se julgam incapazes de fazê-lo. Afinal, o processo é realmente árduo e exige esforço, doação e sacrifício, o que é de se esperar em relação a um bem verdadeiramente elevado.

Acontece que o estudo do latim é, sim, um instrumento essencial — o mais essencial, diríamos — para o pleno desenvolvimento das capacidades intelectivas de todo e qualquer indivíduo nascido em uma sociedade ocidental filha de uma tradição que tem a língua latina em sua raiz.

Dito de outro modo, se você deseja alcançar a verdadeira inteligência, não tem jeito: você precisa estudar latim. Inúmeras são as razões que o justificam. Vejamos algumas.


O latim é especialmente adequado para treinar e dar forma à nossa inteligência…


A primeira delas nasce do fato de que a inteligência humana é eminentemente discursiva, isto é, ela não tem a capacidade de captar e compreender, de maneira intuitiva, imediata e profunda, todos os aspectos da realidade concreta. 

Portanto, para aprofundar-se nesta mesma realidade, ela o faz por meio do discurso: a partir de elementos e verdades já captados, ela extrai informações, relacionando-as com aquilo que ainda não foi captado. E para que se possa fazer isso, é preciso que você seja capaz de comparar essas informações e, mais importante, de reter aquelas que já foram compreendidas. 

Ou seja: a inteligência capta uma verdade e a inclina em direção a outra por meio de raciocínios, de modo que, de uma verdade captada para outra, seja construída uma cadeia de raciocínios. Agora, para construir essa cadeia de raciocínios, nós precisamos nos lembrar daquilo que está na base, fixar os pontos que hão de sustentar toda a cadeia.

Daí que a inteligência em muito se beneficie do estudo racional da linguagem por meio de textos — e aqui entra o latim. 

Em um dos vídeos do nosso canal no YouTube, o professor Fábio Florence defendeu que o latim, em sua forma mais desenvolvida, é um idioma muitíssimo bem estruturado e articulado e que prima pelo uso de períodos gramaticais longos. E, para a compreensão de períodos gramaticais longos, você precisa, além de fazer a análise sintática dos termos, reter as informações apresentadas para, chegando ao final do período, lembrar-se do que foi dito no começo.

Então, por possuir essa articulação muito profunda entre os termos dispostos no texto, o estudo do latim é especialmente adequado para treinar e dar forma à nossa inteligência, pois nos força ao movimento discursivo — a linguagem dá forma à inteligência.

“Certo… Mas precisa mesmo ser o latim?”, algum leitor pode se questionar.

“Se o sujeito precisa de um instrumento para desenvolver sua capacidade discursiva e, assim, a sua inteligência, por que não simplesmente fazê-lo por meio de obras em língua portuguesa bem estruturadas e que contenham muitos períodos longos?” 


…não dá margem para compreensões superficiais ou subjetivismos…


É aqui que entra o segundo motivo para que estudemos o Latim — e é algo muito simples: é muito útil fazer esse tipo de estudo a partir de uma língua estrangeira, pois isso evita qualquer comodidade que possamos ter em relação à nossa língua nativa.

Nós já somos tão acostumados com o nosso próprio idioma e com a maneira pela qual as coisas são ditas e escritas que, naturalmente, nossa atenção tende a ignorar detalhes por vezes essenciais. Já, no contato com uma língua estranha, somos obrigados a dar atenção a todos os elementos apresentados, tendo de empreender um trabalho, digamos, mais analítico, racional.

Como disse o professor Felipe Assis, na live Por que estudar latim, a não familiaridade com a língua, obriga o estudante a lidar com os textos de forma mais racional e profunda, e não de uma maneira intuitiva e superficial que, conquanto seja útil para a vida cotidiana, muito limita o desenvolvimento da inteligência. 

Veja, no estudo do português, nós começamos a perceber as estruturas racionais da língua, tanto na morfologia quanto na sintaxe, mas, invariavelmente, ficam elementos ainda escurecidos à nossa visão, os quais entendemos superficialmente, e, não poucas vezes, acabamos nos contentando com essa compreensão superficial, julgando-a suficiente. 

Agora, com o latim, isso não é possível. Por sua própria estrutura, ele não dá margem para compreensões superficiais ou subjetivismos. Afinal, ele exige um trabalho tão singular que acaba por promover o desenvolvimento de uma verdadeira sensibilidade ou consciência linguística, isto é, a consciência da estrutura interna das frases, da construção e das partes do discurso.

Só que isso não é tudo. A algum leitor por ainda restar ao menos um questionamento:

“Mas, partindo desse princípio, isso não pode ser alcançado por meio de qualquer outro idioma estrangeiro?

Por que o meu entendimento acerca das partes do discurso, da construção periódica da língua e, portanto, do pensamento será mais robustecido estudando o latim e não outros idiomas?”

E mais:

“Se eu posso empreender esse mesmo estudo em um idioma que me seja útil, que eu possa utilizar para me comunicar com outras pessoas, por que fazer isso com essa, que, como dizem, é uma língua morta?”


…promove em nós uma significativa tomada de posse do nosso próprio idioma…


Bem, apesar de todo o esquecimento programado a que nossa civilização foi submetida, ninguém pode esconder o fato de que essa é uma língua que faz parte de uma tradição da qual todos somos filhos. 

A tradição intelectual e cultural do Ocidente, naquilo que ela tem de mais profundo e mais fundamental, está redigida e registrada em língua latina.

Por meio do seu estudo, temos acesso a inúmeras referências literárias e culturais que naturalmente têm um peso tremendo sobre a nossa cultura. 

Além disso, por ser uma língua da qual a nossa foi originada, o latim promove em nós uma significativa tomada de posse do nosso próprio idioma, haja vista a morfologia e a etimologia das palavras no português que, em sua imensa, têm no latim sua origem.

Quando você incrementa o seu vocabulário do português a partir da consciência de que muitas daquelas palavras vieram do latim, você está acessando todo um tesouro de significados e relações que estão ligados à nossa tradição, à nossa língua-mãe e a todos os grandes homens do passado que dela alimentaram-se e dela fizeram uso para nos comunicar tudo aquilo que apreenderam da realidade.

Portanto, o estudo do latim não é somente essencial para o pleno desenvolvimento da inteligência, mas também para o integral e verdadeiro desenvolvimento humano de todo e qualquer indivíduo herdeiro dessa riquíssima tradição.

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