Pai X Professor: O que você precisa fazer a respeito da educação do seu filho?

Vivemos numa sociedade burguesa na qual as pessoas preferem pagar por serviços para que nunca tenham de se preocupar com aquilo. Assim também acontece com a educação dos filhos. 

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Em um dos nossos textos mais recentes (Qual é a responsabilidade dos pais na educação dos filhos?) refletimos acerca da freqüentemente negligenciada missão educacional dos pais em relação aos filhos.

Como dissemos ali, ainda que muitos pais, em função de circunstâncias relativas a si mesmos ou ao próprio ordenamento das suas casas e famílias, não possam ou escolham deliberadamente não assumir a regência integral da educação das suas crianças, eles são, sempre e invariavelmente, educadores.

E a razão disso, também explicamos, é muito simples: é neles que os filhos têm a sua referência primeira e imediata, e encontram na observação dos seus hábitos, seus costumes, seu modo de vida, os elementos educacionais, formativos, mais primitivos. 

Portanto, a educação da criança está, ao menos nos estágios iniciais do processo, muito mais em todo o panorama cotidiano de repetição de hábitos que formam em sua mente a sua concepção de vida.

Daí que a paternidade e a maternidade exijam, para que estejam em conformidade com a sua própria natureza, uma transformação de hábitos por parte dos pais, de modo que ofereçam à criança o ambiente e os instrumentos de que necessita para a sua plena formação.

Acontece que muitos são aqueles que não querem participar dessa transformação, pois, a despeito do amor que imaginam ter em plenitude para com seus filhos, não estão dispostos a sacrificar certos aspectos do seu estilo de vida, como desejos, prazeres e costumes. 

Por isso, transferem para as mãos da escola ou do professor essa responsabilidade, como se, mesmo que, por milagre, a escola e o professor sejam os mais íntegros e bem intencionados, a permanência daquele pequeno ser humano num ambiente que, se não despreza, ignora totalmente a importância de hábitos humanos e ordenadores, como os estudos e a vida de oração, não fosse repercutir negativamente na construção da sua inteligência, do seu caráter, da sua personalidade.

E este é só o primeiro problema. Há ainda muitos outros.

Existe uma live no nosso canal do YouTube, com o título Professor não é prestador de serviço, onde os professores Caio, Maurício e João Marcos falam, entre outras coisas, sobre a visão burguesa a respeito da educação.

Como eles demonstram, não é segredo que nós vivemos numa sociedade eminentemente burguesa, e uma das principais características disso é que as pessoas costumam contratar serviços para que não precisem preocupar-se com aquilo.

E não é assim que se pensa acerca da educação dos filhos?

Geralmente, quando uma pessoa contrata um professor ou coloca o filho numa escola é porque não deseja mais sequer ter que pensar no que vai ser do seu filho. Ela paga uma mensalidade cara para que ele tenha acesso ao que há de melhor em educação, garanta um futuro promissor e consiga “ser gente” um dia, correspondendo ao seu investimento. Tudo o que espera é ver boas notas e não receber reclamações.

“Meu filho, eu coloquei você na melhor escola que eu posso. É lá que você vai aprender, que você vai se educar, que você vai se tornar gente…” — quem nunca ouviu algo parecido?

E, ainda que essas palavras não sejam ditas expressamente, o próprio contexto da relação casa-escola deixa seu conteúdo impresso na mente da criança. Assim, terceirizando completamente sua responsabilidade, sem perceber, o pai, que naturalmente é aquela referência primeira e imediata de que falamos, acaba transferindo isso para o professor e a escola.

…você não precisa fazer grandes malabarismos para participar da educação do seu filho…

Agora, veja se o que vem a seguir não lhe parece familiar.

Inicialmente, tudo parece ir bem: a criança chega em casa demonstrando ter aprendido coisas novas, adquirido novas informações, às vezes até se expressando de maneira um pouco diferente, fazendo parecer que a coisa está funcionando. O menino está ficando “sabido”.

Com o passar do tempo, começam a surgir alguns comportamentos estranhos, repreensíveis, e os pais ficam se perguntando onde aquilo poderia ter sido aprendido: “só pode ter sido na escola”.

Daqui a pouco, aparecem pequenas insubordinações e questionamentos sutis à autoridade dos pais, que parecem ir se agravando.

Nessa situação, a maioria das pessoas tende a culpar os colegas das crianças, não é? Elas devem estar imitando o comportamento dos outros. 

E se não for isso? E se, inconscientemente, elas estiverem obedecendo àquela transferência promovida por seus pais ao colocar o professor como sua principal referência?

Veja, isso é algo que até as famílias mais preocupadas com a perversão educacional tendem a ignorar.

É normal que as pessoas do nosso meio tenham muitas queixas contra a educação moderna, mas o seu principal objeto de repugnância costuma ser a doutrinação ideológica e a apresentação de certos comportamentos torpes, imorais.

Claro, essas coisas são de fato muito perigosas, mas há algo ainda mais perigoso. 

Uma das coisas mais graves que se experiencia na escola é justamente aquela mais ignorada: a presença do professor enquanto modelo de vida humana. E mais grave e perigosa ainda quando os pais negligenciam o seu próprio papel na educação dos filhos e estabelecem, como dissemos, o professor como a referência principal, de autoridade e de vida mesmo, para eles.

Assim, inevitavelmente, a criança acaba, em razão da própria mecânica escolar e também da confirmação inconsciente dos pais, tomando o professor como seu maior modelo e ficando cada vez mais impermeável ao exemplo e às intervenções daqueles que lhe deram a vida.

E, então, como acontece muitas vezes, quando os pais percebem essa perda de autoridade e também do aspecto simbólico do que eles representam, não só ficam profundamente abalados, como acabam entrando numa espécie de guerra contra a escola. 

Mas essa é uma luta desleal. Se a mecânica for mantida, não há como vencer. Afinal, a referência já foi dada: a criança aprendeu e se conformou com o fato estabelecido de que a escola é um lugar ao qual ela deve se submeter inteiramente, e o professor é o símbolo ao qual ela deve estar submetida.

Eis aí o resultado de se negligenciar, de se tentar transferir uma missão que é, por sua própria natureza, intransferível – e isso independe se seu filho é homeschooler ou frequenta a escola.

Agora, há, sim, meios de recuperar o que foi perdido ou impedir que esse seja o desfecho de tudo, desde que, como dissemos no texto Qual a responsabilidade dos pais na educação dos filhos?, os pais tomem consciência desta missão e busquem, com toda a sua força, com todo o seu amor, tornar-se o modelo daquilo que desejam para a criança.

E não há com o que se desesperar. Este não é um trabalho tão amedrontador quanto parece.

Nós tendemos sempre a pensar que devemos ter a capacidade técnica máxima para assumir certas responsabilidades e, ao mesmo tempo, sempre pensamos estar aquém dessas capacidades. E pode até ser que estejamos, pois essa é a tensão mesma da vida. Mas não podemos, por causa disso abrir mão do nosso dever — vimos as conseqüências disso.

Mas você não precisa fazer grandes malabarismos para participar da educação do seu filho. Basta, na verdade, que tenha o senso de responsabilidade de assumir este dever, que é seu e de mais ninguém, e trabalhar para resolver as suas próprias deficiências.

E o começo disso está justamente naquela transformação de hábitos da qual falamos no início e de que muitos não querem participar.

Tratamos do impacto que um professor pode ter na vida de uma criança. Mas qual não é, na alma dela, o impacto causado pela personalidade de um pai que demonstra amar as coisas mais importantes e elevadas — como a inteligência e a Verdade — , que se decide por elas e se dedica intensamente em função de alcançá-las?

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