Qual é a responsabilidade dos pais na educação dos filhos?

Muitos pais, por insegurança, negligência ou ignorância, acreditam que podem terceirizar completamente a educação dos seus filhos. Não sabem eles que possuem uma missão que não há como ser transferida.

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Colhem-se, porventura, uvas dos espinhos e figos dos abro­lhos? 

Toda árvore boa dá bons frutos; toda árvore má dá maus frutos. 

Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má, bons frutos. 

Toda árvore que não der bons frutos será cortada e lançada ao fogo.

Pelos seus frutos os conhecereis.

(Evangelho de São Mateus 7, 16b-20)

Gostaríamos de abrir este texto dirigindo uma pergunta ao leitor — e, antes de seguir com a leitura, sem refletir muito, tente dar uma resposta sincera: 

O que você deseja para o futuro do seu filho? Que bens você espera que ele aspire? Que hábitos gostaria que ele cultivasse?

Deixando de lado as respostas mais materialistas e utilitaristas que porventura possam surgir, nós sempre tendemos a imaginar coisas superlativas para o futuro das nossas crianças: a inteligência, a sabedoria, a santidade, a plenitude da personalidade, o desenvolvimento máximo das virtudes…

É natural e benéfico que seja assim, pois, afinal, se os amamos, como não haveríamos de desejar o que há de melhor para aqueles que colocamos no mundo? 

Agora, o que estamos dispostos a fazer, investir e sacrificar por isso?

No último texto que publicamos, falamos do grande números de pais de família que, por insegurança, temendo expor seus filhos a grandes riscos morais, vêm escolhendo um caminho educacional perigoso ao privar-lhes de instrumentos essenciais para o seu desenvolvimento. 

Mas, além desses, há em maior número aqueles que, por um outro tipo de insegurança, ou simplesmente por negligência, ou ainda por pura ignorância, seguem um rumo muito mais perigoso e expõem suas crianças a riscos mais profundos.

Estamos falando dos pais que escolhem não participar da educação dos filhos, deixando-a inteiramente a cargo da escola ou de professores contratados — e é especialmente a eles que se dedica este texto.

Os primeiros, dos quais falamos no artigo anterior, pelo menos têm a consciência — mais ou menos clara — da missão que lhes cabe na formação da sua prole. O seu erro decorre, digamos assim, de um “excesso de cuidado”.

Já os outros, a quem nos referimos agora, erram justamente pela deficiência, às vezes absoluta, de cuidado, ao negligenciar ou ignorar um fato muito essencial: os pais têm uma missão educacional e formativa em relação às crianças.

E essa missão é impossível de ser transferida. Isso decorre de um princípio bastante simples que logo explicaremos.

Mas, antes que algum leitor desavisado se escandalize, certas coisas precisam ser esclarecidas.

Não ignoramos que as circunstâncias em lares distintos sejam igualmente distintas; e não temos intenção alguma de estabelecer regras ditatoriais, absolutas, sobre quem quer que seja.

Existem crianças e adolescentes em estágios mais avançados da educação, cujos pais, por diversas situações, não dispõem dos meios necessários para assumir integralmente a sua condução.

Não podemos negar também, sobretudo se considerarmos o modelo social dos nossos tempos, que certas exigências de trabalho e outras necessidades materiais obrigam muitas pessoas a passar boa parte do dia longe dos seus filhos, tendo de confiá-los a escolas, tutores etc.

Há ainda, reconhecemos, um sem-número de outras situações e circunstâncias a que diversas famílias estão submetidas e que limitam a presença dos pais na educação.

Acontece que, mesmo com tudo isso, não existe situação em que eles não sejam, em algum nível, educadores dos seus filhos.

A função educacional dos pais não é meramente uma norma, mas um fato mesmo da realidade…

Educador é todo aquele que contribui para a formação de outra pessoa. E ninguém afeta mais, para o bem ou para o mal, a formação de uma criança do que os seus pais. E esses são sempre e invariavelmente educadores em razão da sua posição enquanto referência primeira e imediata.

Que pai e que mãe nunca foram surpreendidos e se divertiram com a imagem de um pequeno imitando desajeitadamente seus trejeitos, suas falas e movimentos?  Isso é natural porque a criança encontra neles a primeira figura positiva a ser seguida, o primeiro objeto de admiração.

E ela sempre é levada a repetir, ao menos em grande parte, tudo aquilo que eles lhe mostram.

Justamente por isso, mesmo que você imagine estar livre da sua participação na educação dos seus filhos ao terceirizá-la, você, ainda assim, continuará educando-a.

Como disse o Professor Marcelo Gonzaga, na palestra O verdadeiro dever dos pais, ministrada para o nosso canal do YouTube, não existe circunstância em que você não esteja educando seus filhos: ou está educando bem ou está educando mal. Não há vácuo aqui. 

Com você, a partir do que você demonstra, ela vai aprendendo o que tem valor e o que não tem, o que é importante e essencial para si e o que não é. 

Se, por exemplo, o pai deseja que a criança tenha apreço pela leitura, que se dedique nos estudos, mas não é ele mesmo um modelo dessa dedicação, o que você acha que ela vai seguir? 

Ela obedecerá a um comando verbal para que leia, para que estude, ou ao exemplo que observa em ato cotidianamente?

Se você não se preocupa com os estudos, se não se esforça por desenvolver aquilo que lhe é mais essencial, é isto que você está ensinando: aquilo não é importante.

O mesmo acontece com a vida moral e espiritual. A criança aprende e tende a repetir, de diferentes formas, os hábitos dos pais.

A função educacional dos pais não é meramente uma norma, mas um fato mesmo da realidade. E não há como escapar disso.

A partir do momento em que eles aceitam essa realidade e decidem se comprometer com ela, buscando corrigir as próprias deficiências para que possam tornar-se exemplos dignos de serem seguidos, todo o ambiente em que a criança está inserida começa a tomar uma nova forma — uma mais íntegra, harmoniosa, ordenada —, e, assim, ela será arrastada para práticas mais benéficas e humanizantes.

Do contrário, de nada adianta você desejar todos aqueles bens superlativos de que falamos no início, pois a criança não encontrará neles valor algum.

E, caso ela encontre, caso, independente de você, ela consiga ser despertada para os bens superiores e se decida por persegui-los, ela verá clarificada, estampada em você a sua miséria.

Se você vive uma vida medíocre, alimenta interesses dos mais baixos e, ainda assim, deseja que o seu filho seja um sábio, um erudito ou um santo, se ele de fato alcançar isso, a primeira coisa que perceberá é toda a mediocridade daquele que deveria ser seu modelo.

Não é melhor, então, em primeiro lugar, buscar com toda a sua força, com todo o seu amor, ser o modelo daquilo que espera que ele se torne?

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