A suspensão do juízo moral: Aprendendo a ler literatura com O Estrangeiro, de Albert Camus

Muitos leitores de obras ficcionais da literatura, ao se debruçarem sobre narrativas diversas à sua própria realidade e visão de mundo, esbarram apressadamente num obstáculo quase insuperável que lhes impede de apreciar e compreender aquilo que leem e cuja contenção é indispensável para o domínio das capacidades de leitura e intepretação: o juízo moral.

“Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames’. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem. O asilo de velhos fica em Marengo, a oitenta quilômetros de Argel. Vou tomar o ônibus às duas horas e chego ainda à tarde. Assim posso velar o corpo e estar de volta amanhã à noite. […] Por ora é um pouco como se mamãe não tivesse morrido. Depois do enterro, pelo contrário, será um caso encerrado e tudo passará a revestir-se de um ar mais oficial.”

É comum e quase universal que a leitura dessa emblemática abertura do romance O Estrangeiro, de Albert Camus, num primeiro momento, cause choque e estranheza em nós, leitores.

A mãe do sujeito, Meursault, acabara de morrer, e, ao contrário do que se espera de um filho ao receber uma notícia trágica como essa — tristeza, lamentação, desespero —, ele está raciocinando sobre informações aparentemente acessórias do telegrama.

A depender do modo como nós conseguimos encarar essa situação e manejar o estranhamento, o aproveitamento de tudo o que se segue no texto poderá ser comprometido.

Filme O Estrangeiro, adaptação para o cinema feita por Luchino Visconti (1967).

Durante a leitura de obras da literatura, muitas pessoas têm uma dificuldade, às vezes até uma incapacidade, em suspender, não a descrença, mas o julgamento moral dos fatos, personalidades e ações ali apresentados.

Quando estamos lendo a respeito da vida de um personagem, vendo o modo como ele se expressa e a narrativa em que está situado, existe alguma coisa ali a ser entendida, existe uma personalidade humana que, ainda que fictícia, é como uma síntese de personalidades humanas encontradas pelo autor.

Acontece que, muitas vezes, a nossa tendência é fazer um juízo daquelas ações como boas ou más, não como a conclusão de um processo cognitivo bem direcionado, mas como uma espécie de reação epidérmica, de irritação ou escândalo.

A verdade é que há uma grande diferença entre o juízo objetivo do que está sendo expresso e os nossos sentimentos e impressões ante o texto, que, claro, em grande parte das vezes podem não ser mais do que reflexos da cultura em que estamos imersos.

A habilidade de contenção e de reprocessamento da máquina interior de juízos morais é indispensável para o domínio das capacidades de leitura e interpretação.

Na mitologia grega havia o mito do leito de Procusto, um homem que vivia sozinho numa floresta e tinha o hábito de esconder-se à beira das estradas próximas a essa floresta e ficar de tocaia, à espera de algum transeunte desavisado.

Todas as vezes em que avistava uma pessoa, ele a raptava e levava para a sua casa. Chegando lá, ele forçava a vítima a deitar-se sobre sua cama. Caso ela fosse maior do que o leito, suas pernas ficariam para fora e seriam decepadas por Procusto; e caso fosse menor, seria esticada até caber exatamente ali.

A dificuldade em operar racionalmente aquela distinção entre o julgamento objetivo de uma obra e a temeridade das idéias e afetos pessoais relativos ao que está sendo ali transmitido faz com que nós assumamos a forma de Procusto e tentemos forçar os textos a encaixar-se no nosso “leito” moral, seja ele fabricado por nós ou implantado culturalmente.

Muitas vezes, ao menos de imediato, esse efeito parece inevitável.

Mas existe um modo, por assim dizer, funcional de encarar as obras literárias, que é aquele que nos permite apreciá-las, encontrar o que está sendo transmitido, constatar como as coisas realmente são e, sem nos submetermos aos julgamentos prévios, decidir racionalmente, a partir do que aquilo nos comunica, que uso fazer disso nas nossas próprias vidas.

Entre tantas outras obras, O Estrangeiro é um excelente instrumento para desenvolver essa habilidade de contenção e de reprocessamento da máquina interior de juízos morais, que é indispensável para o domínio das capacidades de leitura e interpretação.

Sem isso, nós seríamos incapazes de perceber, por exemplo, que Meursault, com toda a sua “estranheza”, evidenciada desde o primeiro parágrafo, não é apenas alheio às nossas impressões de certo e errado, não é apenas alheio às nossas concepções culturais e ideológicas.

Ele é um indivíduo privado de sentimentos? É um psicopata? Um sujeito apático diante de tudo e de todos?

Se ouvíssemos os gritos precipitados que emanam da dita máquina de julgamentos, haveríamos de escolher com todas as certezas uma dessas opções.

Mas, racionalmente, tudo o que conseguimos dizer de certo é que ele é pura e simplesmente um estrangeiro — em qualquer lugar, em qualquer tempo e em qualquer cultura.

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